
Já é madrugada e não consigo dormir. A necessidade de escrever invade-me instantaneamente. Acendo, atabalhoadamente a luz do meu candeeiro, ponho uns óculos de leitura, acendo o PC e rapidamente encontro este espaço, o meu cantinho há muito tempo deixado ao abadono, onde posso verdadeira e realisticamente escrever o que sinto, deixar passar o que realmente sou.
Os dias em casa estão a chegar ao fim, e daqui a alguns dias é tempo de regressar à selva. Por muito que nos custe ou pareça irritante, é na "selva" que realmente crescemos, onde qualquer barulho suspeito é uma pista, onde sistematicamente usamos de uma máscara para nos camuflar.
Hoje aconteceu uma coisa. Foi o dia que achei apropriado para abrir o baú das minhas recordações. O sítio onde guardei as minhas cartas, as fotos, os presentes, as coisas mais bonitas que já recebi. E dentro delas estavam duas cartas. Na realidade já datavam de 2007 e eu nunca as tinha lido. Naquela altura não me interessava lê-las. Simplesmente porque naquela altura, nutria uma especie de admiração pulvilhada por amor e carinho por outra pessoa. Hoje lembrei-me de lê-las. E fiquei pasmada! Nessas cartas li as palavras mais lindas e poemas mais sinceros que alguma vez li antes. Apercebi-me: já tinha sido amada sem ter dado conta disso.
O tempo passou, o mundo deu muitas voltas e dou por mim a entender que já se passaram 3 anos desde que vivi as coisas mais importantes da minha vida. A vida é uma página branca onde escrevemos o que queremos e não queremos, em que somos actores sem possibilidade de encenar o nosso papel. E é por isso que erramos. O erro é a estrada que nos encaminha a seguir o rumo do nosso auto-aperfeiçoamento, sem sombra de dúvidas.
E, sincera e humildemente, sei admitir quando sou valente e quando sou fraca. E sei dizer que errei. Errei por muitas razões: desperdicei oportunidades, desconfiei e simplesmente travei muitas coisas, que na realidade, eram as mais puras que me poderiam ter oferecido na altura.
"Amor, alegria, pureza e amizade", já me tinha esquecido desde grupo. Aquele que me acompanhava quando eu tinha 19 anos, quando sonhava, quando sorria para o espelho para ver como ficava. Quando mudava de roupa e voltava a mudar. Quando me deixava levar pelo encanto de sonhar alto, de me deixar levar pelo sonho.
Ainda me lembro de entrar na Resende. E depois na FFUL. E, imperceptivelmente, já entrei na FMUAB há mais de 7 meses, e só agora caio em mim e tenho a certeza que sou, realmente, uma estudante de medicina. O quê? Estou a delirar? NÃO, não estou! Passados muitos sacrificios e muitos anos...agora, sim, estou a tirar um curso, o meu curso! Agora que olho para uma grande amiga que está prestes a acabar o curso e ser enfermeira, e pensar que poderia fazer parte dessa realidade nesse momento. É não controlar o tempo. E não controlar tudo o que se pode fazer com ele. É ter deixado sentimentos para trás das costas, é ter virado tudo do avesso 4 anos seguidos, simplesmente por um "sonho", por uma forma de querer à vida.
E agora que estou longe, que aprendi a viver por mim, que aprendi a ganhar a minha própria força, olho para a menina que eu era, e que nunca tinha percebido que era.
Eu acredito que nada é em vão. E que às vezes é preciso parar para pensar ou retroceder. Não tenho receio de nenhum dos dois!
Uma coisa eu entendi, nestas férias. Tenho pessoas que amo muito e que me amam muito também. São aquelas que me acompanharam nas praxes, nas canções e no nervosismo, igual para toda a gente, nas mesmas proporções. São os meus amigos de hoje e sempre, a minha realidade, a minha boia quando me sinto à deriva. São as pessoas às quais eu devo o meu sincero "obrigada".
É noite, escuro. Faz vento lá fora. Chove.
Por momentos revivi o passado, os Verões e os Natais.
Chegou o momento de viver o presente. Pois é somente esse que existe. E é aí que eu quero estar!